A freguesia Lenda da Capa Rica
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Caparica - a sua romântica lenda PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

Caparica
a sua romântica lenda

Autor: António Correia

Edição: Comissão Municipal do Turismo da Câmara Municipal de Almada, 1976

 

«Era uma vez...»

Vivia numa dessas pequenas e risonhas povoações sobranceiras ao mar, por cima da rocha, ao Sul do Tejo, a meio caminho entre Almada e o Oceano, um pobre velhinha, esfarrapada, arrastando com dificuldade o seu corpo magro e diminuído pelos anos, sempre envolta numa capa andrajosa, remendada num xadrez caprichoso, policromo.

Chamavam-lhe bruxa e avarenta; acusavam-na de pedir, pedir sempre, não obstante supor-se-lhe muito dinheiro escondido não se sabia onde.

Frequentemente a escorraçavam, com gestos de enfado, recusando-lhe esmola.

– «Deixa a capa, bruxa...»

E ela, timorata, desconfiada, humilde, replicava baixinho:

– «A minha rica capa...»

E embrulhava-se mais na capa remendada, que parecia a imagem dos seus muitos anos, a pesar-lhe imensamente sobre os ombros, e seguia, pacífica, serena, rezando as suas orações, piedosamente, sem azedume nem sinal de mágoa.

Era a mais velhinha de todas as velhinhas; dizia-se que tinha tido bens, que vivera com relativa abastança – mas ninguém, ao certo, determinou a sua vida.

Até morrer, todos o sabiam, nunca faltou à missa, na freguesia distante; doente ou com saúde, ia através de montes e vales à Igreja, arredada algumas léguas, e ali, muito encolhida a um canto, ouvia a sua missa e voltava, devagar, esmolando pelo caminho, naquele vício de pedir de que tanto a acusavam.

Além da missa, tinha uma outra romaria: viam-na frequentemente à beira da rocha que dava para o extenso areal, sobre a costa.

E li se ficava entre o céu e a terra, contemplando, imóvel, parecendo fazer parte de tudo naquele tufo rochoso, perante aquela extensão maravilhosa desde o Castelo dos Mouros na serra alcantilhada, ao Norte, até ao Cabo, braço gigantesco estendido pelo mar, a suster-lhe os ímpetos, ao Sul.

Contava, depois, que muitas vezes, ao olhar a planície, o areal imenso, então árido e desolado, viu, através duma clara neblina do tempo, o areal plantado de frondosas árvores, uma grande e luxuosa povoação, largas avenidas, jorros de luz, estendendo-se para o mar onde muitas crianças brincavam entre barcos e redes destinadas a pesca de peixe.

E afirmava que via, via tudo isso ali, bem perto, como se fosse realidade, ao longe no futuro...

Finalmente, um dia, apareceu morta no seu pobre tugúrio, desconfortável, miserável, onde aos vizinhos só foi dado entrar depois que a morte lhes abriu a porta.

Lá estava, num catre humilde, envolta na sua capa, na sua rica capa, como lhe chamava.

Sobre os restos duma cadeira, um crucifixo abria os braços complacentes a tanta miséria, ungindo de religiosidade o quadro lúgubre.

E sob a peanha do Cristo apareceu, com espanto, um sobrescrito fechado, com a indicação de que fosse entregue ao Rei, com a capa.

Que bizarra fantasia a da pedinte, certamente já louca!...

Enterrou-se a velhinha. Mas, quando se despojou o corpo da capa em que estava envolta, se notou que esse andrajoso agasalho pesava... pesava imenso... um peso que os trapos não explicavam.

E com um certo terror, já superstição, a capa foi dias depois levada ao Rei, com a carta da velha.

O Rei, abrindo o sobrescrito, leu as disposições da velha, que lhe legava a sua capa, para que Sua Majestade mandasse construir uma Igreja no povoado humilde que tanto distanciava da mais próxima Igreja.

A corte e os portadores da capa sorriam escarninhamente ao ouvirem a leitura do documento.

Só o Rei, com todo o interesse, pediu que lhe entregassem a capa que lhe era doada...

Ao sentir o seu peso – sopesando por mais do que uma vez o farrapo enxadrezado, mandou que o rasgassem.

Apressaram-se os da corte a cumprir a ordem régia e, vencendo a repugnância de tocar na imunda capa, começaram a esfarrapar os farrapos cosidos e entrecosidos...

Apenas tinham começado, quando, no meio do espanto geral, de entre os primeiros rasgões, começaram a cair dobrões em ouro e, prosseguindo, mais dobrões iam caindo de cada remendo da capa.

Era uma chuva de ouro...

O Rei logo ali prometeu que a Igreja se construiria.

Fez-se a Igreja e o povo passou a chamar-lhe da CAPA-RICA.

Capa-Rica CAPARICA.

Assim diz a lenda como nasceu o nome da nossa Freguesia.

É verdade?

É mentira?

Uma realidade CAPARICA.

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